A ABVE fechou agosto com 57.386 emplacamentos de veículos eletrificados, recorde da série histórica, e com 950.183 unidades em circulação. Mantido o ritmo dos últimos três meses, o país cruza a marca de um milhão ainda em setembro. O número redondo rende manchete, mas o dado que muda o dia a dia de quem opera eletroposto está uma linha abaixo: pela primeira vez os 100% elétricos venderam mais que os híbridos plug-in.

O carro que passou a liderar é o que depende da rede

Em agosto, os BEVs somaram 27.159 emplacamentos contra 19.832 dos híbridos plug-in. É a primeira vez que a ordem se inverte na série da ABVE.

A diferença entre os dois é toda operacional. O híbrido plug-in chega ao posto por conveniência: se a fila estiver grande, ele segue no motor a combustão e resolve o problema em outro lugar. O 100% elétrico não tem essa saída. Para ele, o eletroposto deixa de ser comodidade e passa a ser infraestrutura.

Isso significa que o mesmo volume de carros nas ruas passa a gerar mais sessões de recarga, mais longas e menos adiáveis. A demanda cresce mais rápido que a frota.

Emplacamentos por tecnologia em agosto de 2026. Fonte: ABVE Data

A frota acelera, a rede é medida em outro compasso

O acumulado do ano põe os eletrificados em 20,2% do total de veículos leves vendidos no mercado interno. Em agosto isoladamente, a participação bateu 24,3%. Um em cada quatro carros novos já sai da concessionária eletrificado.

Do lado da infraestrutura, o retrato mais recente é de maio, no levantamento trimestral da ABVE com a Tupi Mobilidade: 25.429 pontos públicos e semipúblicos, dos quais 8.601 de recarga rápida. Contra fevereiro, quando havia 21.060 pontos, a rede cresceu 20,7% em três meses. O levantamento seguinte ainda não saiu — ou seja, esses são os números de que o setor dispõe hoje, e eles não incorporam nada do recorde de agosto.

Há um indicador nesse mesmo levantamento que diz mais do que o total: 1.788 municípios brasileiros já têm ao menos um ponto de recarga, contra 1.649 em fevereiro. Para uma rede em expansão, cobertura municipal é a leitura útil, porque mostra onde ainda não há ninguém.

Uma ressalva antes de dividir um número pelo outro: dos 950 mil eletrificados em circulação, boa parte é híbrido convencional, que não pluga em lugar nenhum. A conta que importa é a dos plug-in, que somavam 505.806 unidades em maio, ou 19,9 carros por ponto de recarga. É esse indicador que aperta quando o BEV assume a liderança das vendas.

Evolução dos pontos de recarga no Brasil. Fonte: ABVE / Tupi Mobilidade, levantamento trimestral de maio de 2026

Onde a fila se forma primeiro

O crescimento não é homogêneo. Ainda no levantamento de maio, o Norte liderou a expansão da rede no trimestre, com alta de 31,1% no total de pontos e 51% nos carregadores rápidos. O Sudeste, que é a maior base instalada do país, cresceu 18,1% no mesmo período.

A leitura prática é que a corrida do milhão não vai ser sentida igualmente. Ela aparece primeiro nas rotas em que a frota de BEV cresce mais rápido que a disponibilidade de carregador rápido e o carregador rápido é justamente o que leva mais tempo para entrar em operação, porque depende de obra, de conexão e de demanda de potência junto à distribuidora.

Quem já tem ponto instalado e energizado neste momento está numa posição que não se compra com velocidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *